Lembro-me perfeitamente da desconfiança com que foi recebida a notícia de que o treinador do Imortal, Mário Palma, havia sido contratado pelo Benfica.
Nos 7 anos que esteve à frente da equipa, venceu 5 campeonatos, 5 ou 6 taças de Portugal e 5 ou 6 taças da Liga. Além disso, elevou a equipa a um patamar europeu inimaginável. Recordo que anteriormente ao Mário Palma, as provas europeias eram quase consideradas como um prémio para os jogadores das equipas melhor classificadas na época anterior.
Ainda assim, a desconfiança ia permanecendo. Nesses tempos ouvi de tudo. Ouvi, por exemplo, que com aqueles jogadores qualquer um ganharia (o que até podendo ser verdade, não retira mérito ao treinador porque, a ser assim, pelo menos não estragou). Cheguei a ouvir também que o grande mérito era do Mário Gomes pois ele é que seria a pessoa que preparava realmente a equipa. Enfim, tudo servia para menorizar a quota parte de responsabilidade do treinador no sucesso da equipa.
No início houve até desconfiança por parte dos seus colegas treinadores, nessa altura, ainda mais corporativistas do que actualmente.
Mais tarde, e apenas quando foi campeão pelo Estrelas da Avenida, vi-lhe ser reconhecido o valor que ele já há muito merecia.
Ao Mário Palma atribui-se uma frase que não será dele mas que era por si utilizada frequentemente. "O Ataque ganha jogos, a defesa campeonatos". Nem mais, era precisamente aí que residia o segredo do sucesso do Benfica. Defender até à exaustão. Ofensivamente, o valor do Lisboa e do Jacques garantiam o resto e atenção que não era fácil jogar contra equipas que preparavam defesas especiais a estes jogadores. Lembro-me que na altura os jogadores detestavam treinar 5-0 e o Mário Palma repetia "Treino é repetição".
No banco, ele não era apologista de grandes rotações, achava que quebrava o ritmo de jogo e julgo que não deveria ser fácil sentar aqueles grandes jogadores por largos períodos de tempo no banco quando, na verdade, eles cumpriam e muito bem.
A sua voz grossa e rouca era bem audível nos pavilhões. "Hey" era proferido por ele entre 35 a 45 vezes por jogo. Não raras vezes temi por ver uma apoplexia no banco do Benfica... e a equipa ganhava quase sempre.
Nesta foto, podemos ver o Mário Palma a dar indicações ao Lisboa (ou seria o contrário :) ), mas o mais habitual seria vê-lo a dar indicações ao Pedro Miguel, o jogador certinho, cumpridor à risca do plano de jogo.